Escrever sempre foi uma paixão para aquela menina baixinha, de
seus 1,50 m de altura, dos olhos gigantes e das perguntas que
nunca se acabavam. Inicialmente quietinha, porém sincera demais
quando se pronunciava, chegando a assustar as freirinhas do colégio
onde estudava, Ana Cecília de Abreu Pinto Araújo, conhecida como
Ciça ou Cecilia, costumava ter um diário e um caderno de desenhos
para ali colocar suas idéias, seus anseios, frustrações e conquistas.
A
jovem carioca de classe-média e 25 anos, mora no Cosme Velho desde
os 11 anos de idade, ama suas bicicletas, a Brigitte e o Eliot,
sua câmera fotográfica e gosta de comprar livros e cds para aprender
línguas doidas, como o holandês. Desde criança sempre escreveu
porque gostava e suas redações na época do Colégio Sion, tinham
um quê de romances açucarados, outras eram verdadeiros contos
policiais, cheios de mistérios e sabotagens.
Filha
única de dois médicos, uma ginecologista/obstetra e um urologista,
Ciça cresceu sem ver a figura da atarefada mãe tanto quanto gostaria.
Complexada por ser baixinha, entretanto, não deixava a sua altura
lhe impor limitações e fazia tudo para provar que não era diferente
dos outros. Fascinada por esportes, especialmente a natação, Ciça
treinava cerca de 6 horas por dia junto com mais uma turma da
mesma idade. "Cotoco raçudo", como era conhecida nas
águas de seu clube, desbancava muita “girafa” por aí. Viajou bastante
pela equipe de natação do Fluminense, para inúmeras competições
e ali fez seus mais valiosos amigos, que até hoje estão presentes
em sua vida.
Até seus 12 anos, a garota era fã do partido comunista
e do Roberto Freire, escrevia cartas para os governantes fazendo
pedidos de maior integração entre o povo e os políticos. Dizia
que, quando crescesse, seria uma líder como Chico Mendes ou uma
pessoa atuante em causas sociais, como a Lady Di (Princesa Diana).
Ciça adorava relatar com orgulho o fato de ter ganhado um beijo
na testa da “princesa do povo”, quando esta veio ao Brasil em
1991.
Infelizmente,
a vontade de revolucionar foi diminuindo, as cartas que mandava
para os deputados e senadores de Brasília nunca foram respondidas,
e com isso, não se sentia ouvida. O aspecto bom dessa fase foi
“o adeus” dado à timidez e ao complexo de altura. Uns murros na
cara de um garoto, que era o dobro de sua altura e seu maior algoz,
fez com que surgisse um sarcasmo explícito, algumas vezes, ferino,
tiradas rápidas e também piadas sem graça. A menina tímida, sem
reação, deu lugar a uma pessoa mais comunicativa, com uma nova
postura: a de que ninguém poderia mudá-la, tentar adequá-la às
regras ou diminuir seu valor por ter baixa estatura.
No
entanto, a escrita foi deixada de lado, os diários esquecidos
e logo, começou a se dedicar aos desenhos, pois percebeu que desta
forma conseguia passar mensagens, gerar sorrisos e gargalhadas
e chamar a atenção. Fez sucesso no colégio com suas caricaturas
dos amigos de turma, de políticos, jogadores de futebol, artistas,
professores sentados em privadas, freiras de lingerie ou carecas.
Ciça desenhava a lápis nas mesas dos colegas e nunca assinava
sua arte. Foi assim que a jovem foi estimulada a fazer o Curso
de Desenho Industrial, mas no fundo não sabia exatamente o que
queria, se era dar vazão à escrita ou ao desenho.
O
início do curso de Desenho Industrial da PUC-Rio era tudo que
ela sonhava, várias matérias sobre história da arte, história
disso ou daquilo e mais diversas aulas de desenho. No entanto,
passada a fase de lua de mel com o curso, Ciça começou a dizer
que queria investigar, apurar as coisas, voltar a escrever, ouvir
o mundo de forma mais ampla e crítica. A garota se considerava
um peixe fora d‘água no meio das pessoas de seu curso na PUC,
passou a andar com alguns garotos da engenharia, pois os considerava
mais criativos e malucos.