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Conscientização
e alienação eram conceitos divergentes, fazendo dupla constante
e obrigatória nas críticas, de maneira sutil ou direta. Resumindo,
o Cinema Novo era essencialmente engajado, indissociável da luta
de classes e algumas vezes poderia ser até confuso, por buscar tanta
inovação nas seqüências das cenas.
Assim,
o diretor propositalmente não usou uma linguagem cronológica linear,
fez idas e vindas aos finais das copas de 50, 58 e 62, do campeonato
sul-americano de 1959. Essa aparente ausência de um fio condutor
no tempo pode gerar uma certa confusão ao espectador, principalmente
aos jovens, aqueles que não vivenciaram tais momentos.
Joaquim Pedro, em seu documentário, trata o futebol como fenômeno
social, manifestação de cidadania. Mostra a beleza do jogo do ídolo,
o sofrimento e a euforia de torcedores, e faz denúncia dos usos
políticos da paixão popular pelo esporte.
Longe
de empobrecer, as imagens em preto e branco conferem uma certa nostalgia,
ajudam a mostrar o romantismo de uma época, um ídolo, sim, porém
um homem simples, que não teve estrutura emocional para suportar
o sucesso.
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Pioneirismo
nas imagens
Torcedores
sem dente, roendo as unhas, radinho de pilha colado no ouvido, choro,
emoção, todos esses se tornam elementos de destaque. Até então ninguém
jamais havia mostrado o “Zé Povão” torcendo e interagindo com seu
time. Uma nova forma de registrar e mostrar a realidade nasce.
O
cinema novao procurava ao máximo fazer cinema-verdade, nada de faz-de-conta
e em "Garincha - Alegria do Povo" não é diferente. A realidade
dos fatos se apresenta, por exemplo, em cenas de Mané indo ao banco
(não por acaso, o extinto Banco Nacional, que patrocinou a obra),
momentos domésticos de Garrincha com as crianças na casa paupérrima
em Pau Grande, ou dançando twist, a dança da moda, ou ainda, bebendo
“guaraná” em sua terra natal juntamente com seu inseparável amigo
Pincel.
“Garrincha
– A alegria do Povo” possui os únicos registros da atuação de Garrincha
pelo Botafogo. Esse fato é uma triste constatação de que o Brasil
é, realmente, um país sem memória. Existem outras imagens de Mané
pela seleção canarinho, mas, pelo clube alvinegro carioca, essas
são as únicas. O filme “Garrincha - Estrela Solitária” (2005) se
utilizou de muitos trechos deste documentário para poder mostrar
Garrincha em seus momentos pelo Botafogo.
É
interessante observar, igualmente, o uso político desse fenômeno
de massas que é o futebol. Os dirigentes e políticos sempre souberam
disso, não deixando passar uma oportunidade de projeção, como estar
ao lado das estrelas vencedoras de uma Copa do Mundo. O filme mostra
claramente isso, com a presença de Juscelino Kubitschek em 1958
e João Goulart, em 1962, aproveitando as glórias das conquistas.
Mais tarde, o governo militar, com Médici, faria também uso político
da Copa de 70, que acabou sendo uma espécie de “anestésico” para
o povo. As perseguições políticas, as prisões e torturas sairiam
do foco, e o presidente acabaria ocupando todos os espaços junto
aos campeões do futebol.
Passado
X Presente
Ver
hoje o documentário “Garrincha, alegria do povo” é, antes de mais
nada, constatar a genialidade do craque, sua simplicidade e ingenuidade
como pessoa e, ao mesmo tempo, a incrível diferença com os astros
dos tempos atuais. Garrincha já tinha ganhado notoriedade como jogador
e, no entanto, sua família continuava vivendo o dia-a-dia pobre
e simples do interior. E ele continuava se sentindo em casa quando
bebia no botequim com seus amigos.
Essas
situações são no mínimo surreais se pensarmos no padrão de vida
das estrelas do futebol atual. Hoje o mundo do futebol profissional
é movido por fortunas incalculáveis, interesses econômicos poderosíssimos
fazendo uso da imagem do jogador. Seus referenciais passaram a ser
mulheres belíssimas, roupas de grife, jóias, e carros, muitos carros,
de modelos importados caríssimos, além de mansões e mudança para
o exterior, com contratos milionários. Os jogadores famosos de hoje
têm nível de instrução mais elevado do que na época das Copas de
Mané, alguns chegam até ao grau universitário.
No
Brasil, o menino ao nascer ganha nome, religião e um time de futebol.
Mal começa a andar e já chuta bola com o uniforme do clube de preferência.
Inicia-se assim a construção social do ato de torcer no futebol.
Este vive do e para o amor incondicional que dedica a seu clube.
Porém, o menino que joga futebol na rua, com bola de meia, já não
existe. Atualmente, os futuros craques se destacam ainda na infância,
sendo “pescados” por olheiros que já os levam para as escolinhas
dos clubes. Os melhores já têm seus patrocínios, com ajuda de custo
e bolsa de estudos garantidos desde então. Perdeu-se um pouco da
naturalidade e do romantismo do futebol arte, com a profissionalização
precoce e o estímulo a ganhos materiais desde a mais tenra infância.
Em seu filme, Joaquim Pedro ousou, inovou e deixou um registro único.
O retrato de um homem, sua trajetória, sua época. Um homem simples,
sem medo de jogar, porque o jogo para ele era seu prazer, sua realização.
Mané Garrincha não se sentia jogador profissional, para ele jogar
era como respirar, era viver. Era um homem grande, o "demônio
das pernas tortas" que, na verdade, nunca deixou de ser o moleque
de pés descalços que jogava um futebol magistral no campinho de
terra.
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