Garrincha: uma estrela do Povo
Registros de um tempo, um futebol que não se vê mais

Por Cecilia Abreu

Fotos: Divulgação, ou seja, tio Google

Crônica Esportiva sobre o documentário "Garrincha - A Alegria do Povo" - trabalho acadêmico - 11/12/2005

 

Garrincha, nome de passarinho alegre, cor de terra. Ou então Manoel dos Santos, o Mané Garrincha, personagem brasileiro das pernas tortas, jeito ingênuo e dos dribles desconcertantes. Este realmente era um menino sapeca que não se adaptava a nenhum esquema tático e levava à loucura qualquer adversário. Mesmo quem nunca se interessou por futebol já ouviu falar desse gênio do esporte.

Garrincha, considerado a alegria do povo na década de 60, deu uma nova dimensão ao Botafogo, por suas alegrias e gols. Também foi o herói das Copas de 1958 e 1962. Nesse embalo de glórias surgiu o documentário com o mesmo nome (Garrincha - A Alegria do Povo).

Mané nasceu em Pau Grande, uma pequena e muito pobre cidade do interior do Rio de Janeiro. À época em que o diretor Joaquim Pedro de Andrade realizou seu documentário (1963), já era pai de 7 filhas.

O filme em preto e branco, apesar de algumas limitações técnicas, utilizava-se de uma linguagem moderna para aquele tempo, seguindo os rastros do Cinema Novo. Este movimento da década de 60 conferiu um caráter ideológico à arte. Conscientizar era palavra de ordem para os diretores dessa fase.

 

 

Conscientização e alienação eram conceitos divergentes, fazendo dupla constante e obrigatória nas críticas, de maneira sutil ou direta. Resumindo, o Cinema Novo era essencialmente engajado, indissociável da luta de classes e algumas vezes poderia ser até confuso, por buscar tanta inovação nas seqüências das cenas.

Assim, o diretor propositalmente não usou uma linguagem cronológica linear, fez idas e vindas aos finais das copas de 50, 58 e 62, do campeonato sul-americano de 1959. Essa aparente ausência de um fio condutor no tempo pode gerar uma certa confusão ao espectador, principalmente aos jovens, aqueles que não vivenciaram tais momentos.

Joaquim Pedro, em seu documentário, trata o futebol como fenômeno social, manifestação de cidadania. Mostra a beleza do jogo do ídolo, o sofrimento e a euforia de torcedores, e faz denúncia dos usos políticos da paixão popular pelo esporte.

Longe de empobrecer, as imagens em preto e branco conferem uma certa nostalgia, ajudam a mostrar o romantismo de uma época, um ídolo, sim, porém um homem simples, que não teve estrutura emocional para suportar o sucesso.

Pioneirismo nas imagens

Torcedores sem dente, roendo as unhas, radinho de pilha colado no ouvido, choro, emoção, todos esses se tornam elementos de destaque. Até então ninguém jamais havia mostrado o “Zé Povão” torcendo e interagindo com seu time. Uma nova forma de registrar e mostrar a realidade nasce.

O cinema novao procurava ao máximo fazer cinema-verdade, nada de faz-de-conta e em "Garincha - Alegria do Povo" não é diferente. A realidade dos fatos se apresenta, por exemplo, em cenas de Mané indo ao banco (não por acaso, o extinto Banco Nacional, que patrocinou a obra), momentos domésticos de Garrincha com as crianças na casa paupérrima em Pau Grande, ou dançando twist, a dança da moda, ou ainda, bebendo “guaraná” em sua terra natal juntamente com seu inseparável amigo Pincel.

“Garrincha – A alegria do Povo” possui os únicos registros da atuação de Garrincha pelo Botafogo. Esse fato é uma triste constatação de que o Brasil é, realmente, um país sem memória. Existem outras imagens de Mané pela seleção canarinho, mas, pelo clube alvinegro carioca, essas são as únicas. O filme “Garrincha - Estrela Solitária” (2005) se utilizou de muitos trechos deste documentário para poder mostrar Garrincha em seus momentos pelo Botafogo.

É interessante observar, igualmente, o uso político desse fenômeno de massas que é o futebol. Os dirigentes e políticos sempre souberam disso, não deixando passar uma oportunidade de projeção, como estar ao lado das estrelas vencedoras de uma Copa do Mundo. O filme mostra claramente isso, com a presença de Juscelino Kubitschek em 1958 e João Goulart, em 1962, aproveitando as glórias das conquistas. Mais tarde, o governo militar, com Médici, faria também uso político da Copa de 70, que acabou sendo uma espécie de “anestésico” para o povo. As perseguições políticas, as prisões e torturas sairiam do foco, e o presidente acabaria ocupando todos os espaços junto aos campeões do futebol.

Passado X Presente

Ver hoje o documentário “Garrincha, alegria do povo” é, antes de mais nada, constatar a genialidade do craque, sua simplicidade e ingenuidade como pessoa e, ao mesmo tempo, a incrível diferença com os astros dos tempos atuais. Garrincha já tinha ganhado notoriedade como jogador e, no entanto, sua família continuava vivendo o dia-a-dia pobre e simples do interior. E ele continuava se sentindo em casa quando bebia no botequim com seus amigos.

Essas situações são no mínimo surreais se pensarmos no padrão de vida das estrelas do futebol atual. Hoje o mundo do futebol profissional é movido por fortunas incalculáveis, interesses econômicos poderosíssimos fazendo uso da imagem do jogador. Seus referenciais passaram a ser mulheres belíssimas, roupas de grife, jóias, e carros, muitos carros, de modelos importados caríssimos, além de mansões e mudança para o exterior, com contratos milionários. Os jogadores famosos de hoje têm nível de instrução mais elevado do que na época das Copas de Mané, alguns chegam até ao grau universitário.

No Brasil, o menino ao nascer ganha nome, religião e um time de futebol. Mal começa a andar e já chuta bola com o uniforme do clube de preferência. Inicia-se assim a construção social do ato de torcer no futebol. Este vive do e para o amor incondicional que dedica a seu clube. Porém, o menino que joga futebol na rua, com bola de meia, já não existe. Atualmente, os futuros craques se destacam ainda na infância, sendo “pescados” por olheiros que já os levam para as escolinhas dos clubes. Os melhores já têm seus patrocínios, com ajuda de custo e bolsa de estudos garantidos desde então. Perdeu-se um pouco da naturalidade e do romantismo do futebol arte, com a profissionalização precoce e o estímulo a ganhos materiais desde a mais tenra infância.

Em seu filme, Joaquim Pedro ousou, inovou e deixou um registro único. O retrato de um homem, sua trajetória, sua época. Um homem simples, sem medo de jogar, porque o jogo para ele era seu prazer, sua realização. Mané Garrincha não se sentia jogador profissional, para ele jogar era como respirar, era viver. Era um homem grande, o "demônio das pernas tortas" que, na verdade, nunca deixou de ser o moleque de pés descalços que jogava um futebol magistral no campinho de terra.

.

Copyright © 2008 - Lhama News. All rights reserved