Jornal de domingo é a notícia fria ou factual
Tudo que couber a gente publica

Texto e Montagem: Cecilia Abreu

Texto publicado no Jornal Povo do Rio - dia 24/01/2008

Ao se analisar os jornais de domingo, ou “domingueiros”, percebe-se que fogem do objetivo e formato de veículo de informação do que acaba de acontecer. Os jornais durante a semana são mais atualizados do que os do final de semana. Domingueiros são iguais em todo o mundo, sendo fechados na quinta e na sexta, finalizados e até mesmo distribuídos aos sábados.

Os tempos atuais são tão velozes, que os dias parecem mais curtos e as notícias do final de semana acabam suprimidas com essa forma que o jornal de domingo tem apresentado.

A idéia central de um jornal de domingo é ter de tudo um pouco, como, as notícias factuais, o cotidiano, mais diversos cadernos e revistas, que podem ser guardados e lidos a qualquer dia do mês ou do ano. Isso tudo deve estar aliado à velocidade dos acontecimentos.

No entanto, quem é que nunca viu vendedores nos sinais de trânsito vendendo no sábado à tarde o jornal de domingo? E o que acontece de importante nas tardes e início de noite dos sábados? O hoje, o agora é dinâmico e se caracteriza por ser repleto de informações novas, se possível em tempo real.

Em função do dinamismo e rapidez presentes nos meios de comunicação, parece algo contraditório observar os jornais de domingo tão antecipados e pensar que eles acompanham as demandas do mundo atual.

Nesse jornais, que são tão diferentes dos demais dias da semana, são apresentados assuntos chatos, desinteressantes, para muitos leitores, assim como, entrevistas e reportagens agradáveis de se ler, extremamente pertinentes e mais aprofundadas.

Jornais de domingo = Revistas?

Jornais de domingo assemelham-se ao Jornalismo de revista. Ambos narram as histórias com mais riquezas de detalhes, pontos e contrapontos, algo característico nas revistas. Estas não focam somente na notícia do cotidiano, além disso, vão na repercussão que elas tiveram ao longo de um determinado período e em temas polêmicos, que geram infinitas interpretações a cerca do assunto.

O articulista Gualter Mathias Netto levanta o tema em seu artigo “Jornais de domingo ou de sábado?” publicado na Revista da Comunicação e deixa para o leitor o questionamento: o que importa mais: a rapidez com que se tem acesso à notícia, ou a forma, o ritual envolvido na leitura domingueira?

Para Carmen Elisa Araújo, médica, 53 anos, o ritual de tomar café com calma aos domingos, lendo um jornal é o que mais importa. “Para mim é fundamental poder abrir minha porta no domingo, ao acordar, e ter o prazer de recolher o jornal gordo, variado, com múltiplas seções. É como se eu voltasse a ser criança e fosse abrir um presente com embrulho gigante. Algumas reportagens, eu até chego a guardar para ler em outra ocasião ou mostrar para outra pessoa que se interesse por aquele assunto específico. O que importa é ler tudo que me interessa, sem correria. Aos domingos não me preocupo com nada em tempo real. Para ser sincera, eu quero mais é que o tempo pare, as horas tenham mais que sessenta minutos, para eu poder descansar a mente e o corpo”, filosofou Carmen.

A opinião desta leitora é compartilhada por muitos, especialmente aqueles que, ao longo da semana trabalham o dia todo e não têm tempo de se dedicar a uma leitura detalhada dos jornais. “Gosto de levar horas lendo com calma o jornal de domingo e alguns jornais que guardei durante a semana. Domingo é o dia em que me atualizo por completo. Gosto de pegar no papel do jornal, sujar a mão e lê-lo em seu formato tradicional. Durante a semana, acabo lendo pela internet ou só leio as principais manchetes do jornal impresso. Mas aos domingos não, nem gosto de usar computador, pois me remete a trabalho”, disse a advogada Ana Cristina Lacerda de 37 anos.

No entanto, há quem pense diferente, como o engenheiro civil, holandês, Hessel Galenkamp, radicado no Brasil há 5 anos: “O único ponto que gosto no jornal de domingo é como ele pode ser mais facilmente desmembrado. Carrego pra lá e para cá o caderno que eu quiser. Essa maior praticidade ocorre porque as seções estão mais definidas e separadas do que nos outros dias, mas o factual e imediato, não ocorre tanto. Isso me irrita, eu sou dinâmico, atarefado e gosto de coisas frescas e prontas. Aos domingos, se quero mesmo saber o que acabou de acontecer, preciso recorrer à Internet ou à TV”, definiu Hessel.

“Para resumir: domingo é o dia do jornal que só tem matéria que poderia ser impressa daqui a dois ou três anos, coisa fria, sem a emoção do inédito”, acrescentou Hessel, de 26 anos.

Jornais domingueiros costumam ser desatualizados

O jornal domingueiro pode acabar dando informação desatualizada. O frescor dos eventos do dia fica prejudicado por ele ter sido fechado tão prematuramente, ou seja, bem antes do domingo chegar. O leitor desatento não percebe, mas para quem trabalha na área e está de olho e ouvido nas notícias, o jornal de domingo pode parecer inútil para se ficar a par do que acabou de ocorrer, mas vem cheio de outros detalhes, para enriquecer o conhecimento geral do leitor.
Segundo a jornalista e turismóloga, Tatiane Corneta, de 28 anos, os jornais de domingo servem para estimular o ócio e a preguiça, pois quando não publicam a informação supérflua, reeditam o destaque da semana que passou com outro tratamento, parecendo assim, uma cirurgia plástica que deixa o assunto enfeitado, repleto de sinônimos daquilo que já foi publicado.

Cada leitor tem uma opinião diferente ou algo a acrescentar dentro da mesma linha de pensamento, mas todos concordam que uma das melhores coisas da vida, enfim, de um domingo, é ficar sentado no sol ou na sombra, sem ter compromisso com hora, com nada e com ninguém.

 

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