A
Alma das Palavras
As
gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo,
advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas
classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas,
e assim como em todos os setores da vida, para
brincar é preciso ter intimidade primeiro.
É
a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca
entre o significante e o significado pra dizer o que quer, dar sentimento
às coisas e fazer sentido.
Nada
é mais concreto do que as letras c, o, n, c, r, e, t, o, dispostas
nessa ordem e ditas dessa forma, assim, concreto, e já se disse
tudo, pois as palavras agem, sentem e falam por elas próprias.
As
palavras têm corpo e alma mas são diferentes das pessoas em vários
pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto, as
palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas.
Existem
palavras complicadas, enigma, trigonometria, adolescente, casal.
Existem
palavras mágicas, shazam, abracadabra, pirimpimpim, Cabum, SIM e NÃO.
Existem
palavras que dispensam imagens, nunca, vazio, nada, escuridão.
Existem
palavras sozinhas, eu, um, apenas, sertão.
Existem
palavras plurais, mais, muito, coletivo, milhão. Existem palavras
que são palavrão, paralelepípedo. Existem palavras pesadas, chumbo,
elefante, tonelada. Existem palavras doces, goiabada, marshmallow,
quindim, bombom. Existem palavras que andam, pé e automóvel. Existem
palavras imóveis, montanha. Existem palavras cariocas, Corcovado.
Toda
palavra tem a cara do seu significado.
A
palavra, somente pela palavra, tirando o seu significado, fica estranha.
Palavra,
palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra,
palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra, palavra não
diz nada, é só letra e som.
Texto
inspirado e adaptado de "A palavra Cruz carrega" de
Adriana Falcão
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