Rua Cosme Velho: recanto admirável e inspirador

Por Cecilia Abreu

Texto publicado no Jornal Povo do Rio - 15/11/2007

 

A Rua Cosme Velho é a principal via do bairro com o mesmo nome, sendo impossível falar sobre uma sem o outro. Há possui algumas transversais, que desembocam em ruas sem saída, um largo no estilo neo-colonial ou até mesmo em ladeiras imensas, de tirar o fôlego de qualquer pedestre, ciclista ou dos carrinhos 1.0, que ficam de língua de fora.

O bairro Cosme Velho é pequeno e eminentemente de classe média, média-alta, residencial, situado na zona sul do Rio de Janeiro, no sopé do morro do Corcovado e do morro Dona Marta, ocupando a parte mais alta do vale do Rio Carioca. Liga-se por continuidade à Rua das Laranjeiras e ao túnel Rebouças. As ruas Cosme Velho e Rua das Laranjeiras poderiam ser uma só, pois não existe nenhum acidente geográfico entre elas e suas histórias são estreitamente ligadas.

É uma região tradicional, cuja história remete ao Brasil-Colônia, e alguns pontos do bairro ainda mantêm características preservadas, como a Bica da Rainha, ponto de parada da rainha de Portugal, D. Maria I, em seus passeios, a partir de 1808, para refrescar-se do calor.

Breve Histórico

Ainda no Império, escravos "agueiros", levavam barris com água proveniente do rio Carioca para uso de seus senhores. As águas de então eram límpidas e recolhidas em ponto alto do vale, na região conhecida como Águas Férreas, que engloba a atual rua Cosme Velho. Esse nome foi utilizado até a primeira metade do século XX, sendo destino final de linhas de bondes e ônibus. Atualmente, Águas Férreas é apenas uma lembrança, já que o atual nome do bairro e da rua foi totalmente incorporado ao conhecimento da população, tendo a mudança se dado em homenagem ao comerciante português Cosme Velho Pereira que, no século XVI, habitava a parte mais alta do vale do Carioca. Na parte mais baixa do vale havia grande número de laranjeiras, o que originou o nome do bairro vizinho.

A Rua Cosme Velho tem nítida vocação turística por sua antiguidade e tradição, contando ainda com muitos imóveis do tempo do império, como, por exemplo, o Museu Internacional de Arte Naif, a estação de trem do Corcovado, na Praça de São Judas Tadeu e o Largo do Boticário, tombado pelo Patrimônio Histórico e que recebeu este nome em homenagem a Joaquim Luiz da Silva Souto, boticário da família real que ali morou em uma fazenda. A entrada do Largo se dá pela rua Cosme Velho, com calçamento em estilo pé-de-moleque, casas com fachadas e telhados coloniais, árvores centenárias e visão para uma faixa de Mata Atlântica e o Rio Carioca, nesse ponto correndo a céu aberto. O Largo do Boticário e o Clan Café (um bar na rua Cosme Velho nº 564) são considerados o Reduto de artistas. Os dois lugares têm promovido, ao longo dos anos, as mais diversas manifestações artísticas e culturais, principalmente relacionados à música e pintura.

Cerro-Corá – é ali do lado

Infelizmente, o bairro não abriga somente a porta de entrada para uma das 7 maravilhas do mundo. No alto da subida da Rua Cosme Velho, no caminho de carro para o Corcovado, há a favela Cerro-Corá e também tantas outras espalhadas e emaranhadas, que estão situadas no bairro de Santa Teresa. Alguns prédios mais altos da rua da Rua Cosme Velho, possuem vista panorâmica para essas favelas, o que faz com que os imóveis se desvalorizem e o charme do local se esmaeça.

O crescimento das favelas tem sido descontrolado, resultando num terrível aspecto estético, na destruição da mata atlântica e no aumento da violência urbana, já tendo sido registrados muitos assaltos a turistas e moradores. Mas o que mais causou sensação de insegurança foi quando a cabine da PM, que fica ao lado do bondinho que dá acesso ao Cristo, foi alvejada durante uma tensa madrugada de confrontos entre policiais e traficantes. Este incidente foi mais um aviso de que nem a morada do Cristo está a salvo da violência que atinge toda a cidade.

Apesar dos pesares...

Apesar de vários problemas, como a falta de serviços na própria rua principal e a favelização, é um local agradável para moradia, com fácil acesso a áreas de florestas ainda preservadas, e relativamente pouco violento, se compararmos com outras áreas da cidade. Dada a importância histórica e à beleza de muitas de suas edificações, reveste-se de muita importância o esforço para se conservar e preservar a história de nossa cidade, fazendo com que o conforto, a tecnologia e a modernidade possam chegar sem destruir um patrimônio tão importante.


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