Mutirão na limpeza do Camelódromo da Uruguaiana
Laudo da perícia, que vai apontar as causas do incêndio, deve ficar pronto em 30 dias

por Cecilia Abreu

Fotos de Vitor Silva

Texto publicado no Jornal POVO do Rio no dia 20/11/07

Mais de 200 pessoas, entre camelôs, catadores e voluntários, iniciaram ontem um mutirão para retirar os escombros e entulhos causados da destruição provocada pelo incêndio que atingiu pelo menos 150 boxes do Camelódromo, na Rua Uruguaiana, no Centro do Rio na manhã do último domingo. Estima-se que o comércio perca cerca de 40% do seu movimento e rendimento no próximo mês, quando será comemorado o Natal – data em que as vendas são consideradas altas.

O camelódromo tem ao todo 1.600 boxes e calcula-se que 227 no total de 484 da quadra C tenham sido destruídos. As outras quadras estão funcionando, mas não há espaço suficiente para os comerciantes se reorganizarem e dividirem seus boxes com os colegas afetados pelo incêndio. No entanto, muitos comerciantes foram solidários no trabalho braçal, juntamente com a empresa Mundo Serviços, que foi contratada pela Associação da Rua Uruguaiana.

Prejuízos

Ninguém ficou ferido no incêndio, mas o ambiente entre os comerciantes que observavam e se envolviam no trabalho era de desolação. A maior parte dos comerciantes afetados pelas chamas, tinha acabado de estocar artigos para o Natal.

Entre as mercadorias que foram perdidas: roupas, CDs, brinquedos e aparelhos eletrônicos. A associação do Mercado Popular, que representa os comerciantes, ainda não fez as contas do prejuízo causado pelo fogo, mas calculam em, no mínimo R$ 500 mil.

Laudo da Perícia

O fogo começou por volta das 8h de domingo e só foi totalmente extinto lá pelas 15h. As chamas se espalharam rapidamente. As labaredas chegaram a mais de dois metros de altura. Houve pânico e desespero entre os que estavam presentes. Os bombeiros tiveram dificuldades para apagar o fogo. Foi preciso furar o piso de concreto para abrir o registro do hidrante.

O laudo da perícia, que define as causas reais do incêndio sairá dentro de 30 dias. A hipótese mais provável, até o momento, é a de que o fogo tenha começado com um curto circuito de dois ventiladores que permaneceram ligados. Mas a polícia não descarta a hipótese de um incêndio criminoso. Quem concorda com esta teoria é o prefeito do Rio César Maia. Em seu ex-blog, o prefeito afirmou que há uma máfia chinesa atuante no comércio popular carioca. Ele cogita a possibilidade dessa máfia ter envolvimento nas causas do incêndio.

Falta d’água no combate às chamas

Segundo Franklina Vieira do Nascimento, lojista do camelódromo, que saiu na capa da edição de ontem do Jornal POVO do Rio, sendo retirada do meio do fogo por um bombeiro, não havia extintores de incêndio para os próprios comerciantes começarem a apagar o fogo. A comerciante ainda reclamou da falta de água, agilidade dos bombeiros e de informação.

- Se não fosse a água do metrô, muito mais alas do camelódromo teriam sido atingidas. Demos sorte de ter sido só a ala C Os bombeiros demoraram demais para agir - contou a comerciante.

O tenente-coronel Cesar Melhem, que comandou a operação, admitiu ontem que os bombeiros tiveram de quebrar parte da calçada em torno do hidrante, para ter acesso ao registro do dispositivo, mas negou que tenha faltado água.

Os bombeiros usaram também a reserva de água do metrô para abastecer as mangueiras. Melhem disse que os bombeiros tiveram dificuldades para entrar nos corredores estreitos do camelódromo. Segundo ele, o incêndio se intensificou rapidamente por causa da grande quantidade de produtos inflamáveis, como CDs e artigos de plástico.

Franklina afirmou que a mercadoria que vende são fitas originais de playstation 1 e 2, entre outros eletrônicos, ela estimou sua perda em cerca de R$ 70 mil. A comerciante também reclamou da falta de informação prestada a muitos comerciantes em todos os tipos de situações.

- Não sei nem o que vim fazer aqui hoje. Estou perdida, não tenho mais mercadoria alguma. Ninguém investe no camelódromo, agora dá nisso. A polícia bate ponto quase todo dia aqui, pra apreender mercadorias piratas, agora vir gente da prefeitura e investir dinheiro aqui, não tem. Acabei de pagar uma multa parcelada em 10 vezes, que não veio especificada, só veio escrito que era referente à multa por mercadagem. Terminei de pagar e outro papel com a mesma multa e o mesmo valor chegou pra eu pagar. Com quem eu reclamo? Mas afinal, quem foi que me multou, não há identificação alguma sobre quem teria me multado. A associação também nunca sabe de nada, nunca dá satisfação a ninguém. E agora com incêndio é a mesma coisa. Como vou recuperar o dinheiro das minhas mercadorias? E os cheques pré-datados que passei? Está tudo destruído. E não havia extintor ao nosso alcance – desabafou.

Comerciantes pedem providências

De acordo com Rosalice Rodrigues Oliveira, presidente da Associação da Rua Uruguaiana, os extintores ficam dentro da associação e a falta d’água em conseqüência do hidrante entupido dificultou a ação dos bombeiros.

- Um orçamento de brigada de incêndio, incluindo treinamento dos comerciantes em casos como o incidente de domingo foi feito há mais de dois meses. No entanto, nada foi fechado ou colocado em prática devido à falta de verba para pagar a empresa.

Rosalice reforçou seu pedido de ajuda às autoridade e disse que uma caixinha será passada entre os comerciantes, para que todos colaborem com a reconstrução do local.

- Foram mais de três horas de fogo. Mão de obra nós temos, mutirão com gente disposta a trabalhar e reerguer o mercado também. Estamos todos reunidos para recolher os destroços e, assim, trabalhar de forma conjunta na recuperação da quadra C. O que nos falta é dinheiro. Peço aos políticos, autoridades, quem quer que possa ajudar, que nos auxilie na compra de material elétrico, telhas, ferros. Precisamos agilizar isso, muita gente perdeu tudo, não temos dinheiro algum para reconstruir e muito para colocar em prática as instruções da brigada – explicou a presidente.

Ela declarou que a prefeitura ainda não fez contato com ninguém da associação e pede para que o prefeito colabore para melhorar a situação em que o mercado se encontra. Ela estima que em 20 dias o funcionamento volte ao normal naquela ala e ressaltou que o dinheiro que a associação arrecada vem da colaboração dos que trabalham no mercado e quem nem todos os 1.600 boxes são pagantes.

Garimpagem

Muitas crianças e ambulantes passaram o dia garimpando o que era possível entre os destroços. Guilherme Silva, de 17 anos, olhava para os playstations queimados com água nos olhos. Ele retirou dois no meio dos entulhos. Outras pessoas recolhiam moedas e pedaços de notas queimadas.

- Ninguém gosta de moedas, dizem até que moeda não é dinheiro de verdade. Já consegui garimpar uns 60 reais no meio dos ferros distorcidos e dos equipamentos. Na hora do sufoco fica todo mundo querendo recolher o que pode - afirmou um camelô que não quis se identificar.

O camelódromo da Uruguaiana é um mercado popular, bem tradicional na vida dos cariocas, localizado na Rua Uruguaiana, próximo à Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio. O mercado existe há 13 anos e este foi o terceiro incêndio no últimos seis anos.

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